domingo, 28 de fevereiro de 2010
Recuerdos do Parc Güell
Agora fecho os olhos e deixo entrar soltas as notas da guitarra espanhola. Eco, suave. Volto para a tarde de sexta-feira, tarde cheia de sol e de notas. Soltas, sentidas, leveza.
Ele fecha os olhos, desliza os dedos, cordas, produz notas. Soltas, solto, soa como piano. Que delicadeza. E o eco suave entre colunas, mosaicos, tetos e curvas. Sente a música, sente o momento, entre colunas, desenho meticuloso, perfeito. Gaudí.
A gente se fecha nesse mundo de arte, de notas, de sentido profundo. Para tudo. Não há turistas, ruídos nem tempo, só música. Que entra em silêncio no corpo, no pensamento, arrepia a alma, enche os olhos. Hipnotiza.
Juntos descobrimos o músico, as notas, soltas, sentidas. Nos descobrimos, ligação correspondida.
O músico desliza os dedos, toca notas de "Astúrias" (Isaac Albéniz), do gajo satisfaz o desejo. E se vai.
O gajo, enfeitiçado com a música (e com todo esse ar, essa arte, essa paisagem), compra o CD e me deixa as notas. E se vai.
Agora eu fecho os olhos e deixo entrar soltas as notas da guitarra espanhola. E os recuerdos do Parc Güell.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Barça, Barça, Baaaaaaaaarça!
Ansiedade, expectativa, exaltação. Meu pai era tudo isso e mais um pouco naquela noite enluarada de sábado. E nos contagiou, ele e a lua. "Estou no Camp Nou, quem diria", sussurrou à saída do metrô. Eu ouvi, sorri comigo mesma, contente de fazer parte dessa realização.
A verdade é que todos éramos crianças como ele. Eu e a Má ainda não havíamos pisado no palco do Barcelona Futebol Clube. Mais: essa também era a primeira vez dela num estádio - que bela estreia! Já a Telma, bem, não é assim fã, mas está sempre feliz.
Ver o Barça em ação é essencial. Pelos jogadores-estrela como Messi, Iniesta e Thierry Henry, pelo campo moderno e aconchegante ou simplesmente pela lenda. Porque emoção, emoção mesmo, como no Pacaembu lotado de arrepiar a alma corinthiana, não tem não.
A torcida azulgrana é comportada, a organização ao redor do estádio é exemplar, e a polícia não faz mais que orientar o trânsito. O metrô estava todo azul-vermelho, camisetas, bandeiras e lenços. Em silêncio. Ah se fosse no Brasil...
Ficamos na geral, sentadinhos, com cadeira numerada, é mole? No Camp Nou, ninguém assiste aos jogos em pé. Compramos o assento mais longe (leia-se mais barato) e ainda assim estávamos perto. A partida era válida pela Liga Espanhola, e o adversário, o fraco Racing de Santander.
Por isso mesmo o Barça poupou alguns craques, como o aclamado Zlatan Ibrahimovic (Ai, Cogu, não foi dessa vez), para o jogo contra o Sttutgart pela Liga dos Campeões (terça-feira, 23 de fevereiro, 1x1). Aliás, não fosse o Zlatan empatar a partida no final...
Bola em jogo, torcida sentada e três ou quatro vozes tentando embalar no ritmo de: olêêêêêêêêêêê, Barça aê, olêêêêêêêêêêê, Barça aê. A gente, claro, tentou ajudar, sem muito sucesso. Foi então que decidi fazer uma galeria de fotos e vídeos, enquanto Messi, Rafa Márquez, Henry e Iniesta marcavam 1, 2, 3 e 4 golaços. A reação da torcida? Palmas e nada mais.
Houve poucos lances polêmicos e o juiz quase não foi massacrado. Ouvimos no máximo um "cabrón" e dois "maricón". Em compensação, muitas jogadas geniais, dribles rápidos de Messi, chutes certeiros de Henry. Meu olhar cruzava o do meu pai, a gente sorria, admirados.
Ao vídeo com o gol de Rafa Márquez vocês assistem neste link
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Obrigada
Parc Güell, Barcelona
Eu aprendi, desejei, lutei, conquistei. Seguindo exemplos, meus ídolos, caminhos, com orgulho. Voei. Agora longe, tempo corrido, vida sozinha, eu me guio. Saudade, controle. Quando comecei a me acostumar com as circunstâncias, e a distância, eles vieram - e realizaram mais um sonho. Nosso sonho.
Me reconheci no jeito do Celso e nas risadas da Telma. Lindo reencontro, comigo, com eles. Senti uma imensa alegria ao perceber seus olhares brilhando felizes todos os dias, a cada descoberta. E me senti querida como nunca, todos os dias, a cada olhar, palavra, gesto. Com um simples sorriso, um abraço saudoso, uma preocupação, toda proteção. Com o saco de damascos fresquinhos, as mexericas e os queijos de cabra comprados com carinho no Mercat de Ninot. Só para me paparicar. E eu orgulhosa em aceitar tanto mimo. Vocês são meu maior presente.
Consegui trazê-los para Europa e tentei mostrar o melhor que existe num pedacinho desse continente que em mim exerce um feitiço inexplicável. De Sintra, Cascais e Lisboa a Barcelona. Com visitas a palácios, jardins e bairros antiquíssimos. Com pratos e copos sempre cheios, claro. E um grand finale inenarrável: jogo do Barcelona, em pleno Camp Nou, para delírio do meu craque Alemão.
Passou rápido, muito rápido, mas vivemos, aproveitamos e provamos tudo. Intensamente. Eles mais uma vez realizaram um sonho. Nosso sonho.
Sinto que não consegui expressar tamanha gratidão. Tento aqui de novo: obrigada. Eu amo vocês e não posso viver longe. Foi difícil engolir mais uma despedida. Fico abraçada às nossas lembranças.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
À sombra de Murphy
Fazia tempo que não escrevia aqui, mas o dia de ontem merecia um post.
Começou com a "clase" de direito tributário (tem coisa mais chata?) que deveria terminar às 21:30hs, mas foi até 21:38hs. Desço correndo as escadas, cansada, carregada, e encontro a Camis no corredor, que já me esperava há um bom tempo...
Lá fora ainda chove. Computador e livros pesados à mão...Ihhhh, esqueci o guarda-chuva na sala. Volto e vejo a professora, que pergunta: "Hay un paráguas en la silla, es tuyo?" Sí sí!
Paráguas resgatado, corre para o metrô. Fome. Ainda descíamos as escadas quando soou o apito que avisa que a porta do trem vai fechar. Corremos mais, mas ela fechou bem na nossa cara. Olhamos direto para o marcador: faltam seis minutos para o próximo trem.
Não fosse os 8 minutos a mais de aula e o paráguas esquecido teríamos entrado. Ok, respira, senta, espera. Fome.
Agora alcançamos a metade do destino: Sants Estació. Mais duas estações e estamos em casa. O apito toca de novo, corre, corre, e mais uma vez damos com a cara na porta. Mais 4 minutos, 3 minutos e.....o tempo para. No marcador: "servicio indisponible por problemas técnicos". A gente se olha, quase chora. Peso. Fome.
De novo, não fosse a professora tagarela, o "paráguas" esquecido ou o primeiro trem perdido já estaríamos quentinhas em casa. Vamos de táxi, que remédio? Paramos na esquina de casa, mais especificamente na lojinha de um pak. Vamos comprar ingredientes para fazer um pé-de-moleque que há dias nos dá água na boca. A gente merece, vai! A receita enviada no mesmo dia pela mamis eu já sabia de cor!
Jantar destruído, faço a sobremesa. O aspecto do doce era tão bonito quanto o do feito pelas nossas mães, mas o gosto... O que era aquilo? Sal? "Caaaaaaamiiiii!". Era sal! O amendoin que compramos era bem salgado e não combinou nada com o leite condensado. Argh!
Nossa noite termina assim, um pouco frustrada. Vamos dormir sonhando com o verdadeiro pé-de-moleque. Até isso deu errado hoje!
Dizem que nada na vida é por acaso. Talvez Murphy quisesse colaborar com o nosso regime, mas não conseguiu. O pé-de-moleque salgado é ruim mas é bom. E já está na metade!
Começou com a "clase" de direito tributário (tem coisa mais chata?) que deveria terminar às 21:30hs, mas foi até 21:38hs. Desço correndo as escadas, cansada, carregada, e encontro a Camis no corredor, que já me esperava há um bom tempo...
Lá fora ainda chove. Computador e livros pesados à mão...Ihhhh, esqueci o guarda-chuva na sala. Volto e vejo a professora, que pergunta: "Hay un paráguas en la silla, es tuyo?" Sí sí!
Paráguas resgatado, corre para o metrô. Fome. Ainda descíamos as escadas quando soou o apito que avisa que a porta do trem vai fechar. Corremos mais, mas ela fechou bem na nossa cara. Olhamos direto para o marcador: faltam seis minutos para o próximo trem.
Não fosse os 8 minutos a mais de aula e o paráguas esquecido teríamos entrado. Ok, respira, senta, espera. Fome.
Agora alcançamos a metade do destino: Sants Estació. Mais duas estações e estamos em casa. O apito toca de novo, corre, corre, e mais uma vez damos com a cara na porta. Mais 4 minutos, 3 minutos e.....o tempo para. No marcador: "servicio indisponible por problemas técnicos". A gente se olha, quase chora. Peso. Fome.
De novo, não fosse a professora tagarela, o "paráguas" esquecido ou o primeiro trem perdido já estaríamos quentinhas em casa. Vamos de táxi, que remédio? Paramos na esquina de casa, mais especificamente na lojinha de um pak. Vamos comprar ingredientes para fazer um pé-de-moleque que há dias nos dá água na boca. A gente merece, vai! A receita enviada no mesmo dia pela mamis eu já sabia de cor!
Jantar destruído, faço a sobremesa. O aspecto do doce era tão bonito quanto o do feito pelas nossas mães, mas o gosto... O que era aquilo? Sal? "Caaaaaaamiiiii!". Era sal! O amendoin que compramos era bem salgado e não combinou nada com o leite condensado. Argh!
Nossa noite termina assim, um pouco frustrada. Vamos dormir sonhando com o verdadeiro pé-de-moleque. Até isso deu errado hoje!
Dizem que nada na vida é por acaso. Talvez Murphy quisesse colaborar com o nosso regime, mas não conseguiu. O pé-de-moleque salgado é ruim mas é bom. E já está na metade!
Neve e chocolate
Quando ela abriu a porta - e o sorriso -, uma horinha mais tarde, nos deu um abraço apertado com um ano de saudade. Papo vai, papo vem, pergunta, conta, tagarela. E o dia vai se apagando lá fora. Mas ainda queremos conhecer Basel antes do prometido fondue (já devidamente reservado).
Tudo se encaixa nas praças, fontes e ruas do centro histórico, deste e do outro lado do Rio Reno. Parece até maquete: casas alpinas com tetos pontudos e flores na varanda, igrejas, bondinhos, a estação Bahnhof. Lojas e mais lojas, relógios, chocolates e mais chocolates. Nham, que fome!
Nesta noite comemos o melhor fondue da (nossa) história. Queijo, forte, ardido, quente. E um vinho branco suave. Combinação perfeita para começar nossa saga gastronômica pela Suíça.
O sol, quem diria, apareceu no sábado para nos levar a Zurich. Um dia de descobertas, a começar pela confeitaria da Lindt, dentro da estação de trem. Daquelas que só a vitrine faz você lamber os dedos, sabe? Seguimos sem rumo a beleza irretocável da cidade. Um chocolate quente aqui, passeio de barco, uma salsicha com batata rösti acolá...
A nevasca de domingo impediu qualquer passeio mais distante. Melhor assim. Curtimos a prima e aprendemos com ela características importantes da cultura local. Aqui todos falam alemão e muitos entendem francês. O povo suíço é quente, simpático, amigo. A cidade segue uma impressionante organização e tudo, absolutamente tudo, funciona.
Esse é o lugar da Lalá. E sua felicidade de estar ali nos contagiou. Papo vai, papo vem, pergunta mais, conta mais, tagarela. Deixamos a cidade debaixo de neve, com 1001 sonhos a realizar, uma viagem ao Marrocos combinada e muitos, mais muitos chocolates.
Presente Ingrato
Qué raro! Percebemos o fenômeno logo na primeira semana de vida em Barcelona, mas foi numa conversa informal com minha querida companheira de trabalho Carla Pérez, nesta semana, que me dei conta de tamanha estranheza.
Barcelona parece ser invadida todas as noites por elas. Entram não se sabe por onde nem como e se reproduzem como células, formando bolas cinzas de todos os tamanhos. Pela casa inteira. "Eso no pasa en Venezuela", exclamou Carla. "Tampoco en Brasil", apressei-me em responder.
Carla seguiu sua teoria: "eso parece broma de Papá Noel". Explico: ninguém sabe, ninguém viu, mas o "presente" ele deixou. Então fechamos portas e janelas (no inverno é mais fácil), passamos vassoura, aspirador e..... no dia seguinte, lá estão elas. Aos montes.
Carla sugeriu que essa anedota seria um post engraçado para o blog. É mesmo, aqui está. Mas como não pensei nisso antes? A verdade é que, apesar de limpar (e limpamos hein!), já estamos indiferentes às bolotas de poeira. Blah!
Barcelona parece ser invadida todas as noites por elas. Entram não se sabe por onde nem como e se reproduzem como células, formando bolas cinzas de todos os tamanhos. Pela casa inteira. "Eso no pasa en Venezuela", exclamou Carla. "Tampoco en Brasil", apressei-me em responder.
Carla seguiu sua teoria: "eso parece broma de Papá Noel". Explico: ninguém sabe, ninguém viu, mas o "presente" ele deixou. Então fechamos portas e janelas (no inverno é mais fácil), passamos vassoura, aspirador e..... no dia seguinte, lá estão elas. Aos montes.
Carla sugeriu que essa anedota seria um post engraçado para o blog. É mesmo, aqui está. Mas como não pensei nisso antes? A verdade é que, apesar de limpar (e limpamos hein!), já estamos indiferentes às bolotas de poeira. Blah!
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