quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Show de luz

A jornada começou ainda no escuro e já passavam das 7h30. O ônibus ia descendo pela costa quando a primeira faixa vermelha riscou o horizonte. Intensa. Foi invadindo o céu e ganhando contornos alaranjados. Crescente. Iluminou o mar, as montanhas, a estrada, minha janela. Eram 8h30 e o sol, enfim, havia nascido. Uma paisagem de encher os olhos. Eu realmente sou uma pessoa de sorte, pensei. E esse era só o começo da viagem pela Espanha.

Mas o sol que acordou o dia logo desapareceu no caminho entre Barcelona e Valencia. A escuridäo venceu a batalha, caiu uma chuva sem-fim. Dormi, acordei, dormi, acordei e nada da água acabar. Até descer do ônibus, olhar bem para o céu e ver um pedaço azul de esperança. Eu sabia. Ele nasceu de novo, o sol, e encheu ainda mais de charme a cidade, meu passeio, meu humor.

Valencia é florida, viva, colorida. Em cada canto, praça, jardim e até na praia. Com um céu azul de ponta a ponta fica ainda melhor. Que sorte. Mas ainda tinha a lua. Minguante, caindo, para encher de cor a noite. O céu alaranjou de novo, eram 18 h, e a lua já estava lá. Depois se transformou em azul escuro. Intenso. A lua minguante, a luz, a cor. Que presente de Natal.




Pensei que só voltaria a escrever neste blog no fim da jornada, em 10 de janeiro. Mas não resisti. Esse show de cores que vivi não saía da minha cabeça. Eu realmente sou uma pessoa de sorte, pensei. E precisava compartilhar.

Feliz Natal, meus queridos amigos. O meu vai ser na praça, diante da Catedral, com direito à missa do Galo. E vinho, e cava, e presunto cru e queijo parmesão. Com duas amigas muito queridas.

domingo, 20 de dezembro de 2009

A MESTRA



Quem mais chegaria assim tão de repente, sorrindo como criança na manhã de um sábado colorido? Quem mais traria em mãos a reportagem sobre o bar Dry Martini e o guia completo de baladas? Quem mais compraria queijo de cabra, aviões de brinquedo e um despertador num único passeio? Quem mais bateria na nossa porta de manhã com croissants quentinhos, presunto cru e queijo brie? E botellas de vinho, e botellas de cava. Quem mais aproveitaria intensamente cada momento, quem mais nos contagiaria com tanta alegria? Quem mais levaria uma jarra de sangria para o alto do mosteiro? Quem mais teria essa vontade imensa de conhecer tudo, ver tudo, curtir tudo? Quem mais nos levaria para a balada dia após dia. E mudaria o placar, e nos daria o exemplo? Salve, salve, a mestra chegou, arrasou e por muito pouco não ficou. Sentiremos sua falta.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Memória fotográfica

Castelo de São Jorge, Mosteiro dos Jerónimos e pasteizinhos de Belém. Óbidos, Sintra, Cascais. Balada na  Jézebel, almoço na casa do Alê e muitas outras fotos incríveis e engraçadas. Eu tinha todas.

Depois de uma semana de "poderia tirar uma foto nossa, por favor", eis que levo minha câmera e sua memória cheia para o Bairro Alto de Lisboa. Último dia de balada, últimas imagens para fechar nosso álbum em Portugal. O "bairro", como é carinhosamente chamado, estava lotado de gente jovem nas ladeiras estreitas, nos bares. A música transbordava para as ruas.     

No caminho para o bar escolhido sinto um cutucão nas costas, olho para trás, vejo um vendedor e sua caixa de relógios. Toco minha bolsa, ela está lá. Chegamos, vamos beber. Pego dinheiro na bolsa, ela está meio aberta. Insight. Será? Não quero acreditar.

O brinde de morangoska merece registro. "Vamos tirar uma foto?". Abro a bolsa e, claro, ela, a câmera, não está lá. Penso nas fotos tiradas. No trajeto até o bar, nas músicas, no vendedor de relógios, no cutucão nas minhas costas. Olhos com lágrimas: "Cami, levaram minha máquina". A resposta otimista "você deve ter deixado no carro" deu esperança.

O gajo me acompanha até o carro, dou a chave para ele, não quero ver. E não vi. Nem a câmera, nem as fotos.

Agora meu pen drive corre pelas mãos das amigas em busca das lembranças. Pelo menos ainda as tenho bem guardadas na memória. E essa ninguém me tira.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Un giro gira!


Fotos by Jaque Januzzi


As roupas coloridas continuam estendidas nas janelas. Vozes simpáticas com gestos espalhafatosos seguem divertindo as ruas da capital. A castanha ainda perfuma o ar do centro, as ladeiras de pedra sempre levam a igrejas e castelos seculares. Ou às margens do bucólico Tejo. As largas avenidas também estão lá no lado moderno.

O Palácio da Pena nunca deixará de ser o ponto alto do ponto mais alto de Sintra. As muralhas do Castelo dos Mouros não cansam de percorrer as montanhas nem de compor essa paisagem medieval, emoldurada pelo mar de Cascais. Mais ao norte, a tradicional beleza do Douro e o saboroso Porto.




E eu pensava conhecer-te um pouco. Mas a verdade é que só comecei a te descobrir agora.

Perdi o prumo diante do charme de Óbidos, uma cidade protegida há séculos pela mesma muralha. Pode ter sido um déjà vu, não sei, mas me arrepiei da cabeça aos pés ao caminhar por suas ruazinhas de pedra, passando por casas brancas de telhado morado e fachadas coloridas, tavernas aconchegantes, pessoas risonhas. A vila estava em festa, já é Natal. E aquele papo cabeça... E aquela ginjinha...




Perdi o rumo na linha de Cascais. Não é verão e pouco importa. A estrada acompanha as praias, uma mais linda que a outra. Estoril, Guincho, Abano... o somzinho relaxante do mar...o sol também nos segue, cada vez mais baixo, até sumir no horizonte. Vimos esse espetáculo em cinza e laranja do alto dos 140 metros do mirante em Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa.




Ganhei. Vivendo um pouco da vida local, convivendo (e aprendendo) com gajos de verdade, conhecendo recantos indescritíveis.

Já deixas saudades, Portugal.

  

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Que língua é essa?

Chegamos com o sol que há semanas havia abandonado a “terrinha”. Pela janela do autocarro reconhecemos de longe a rotunda mais famosa de Lisboa: Marquês de Pombal. O cinco-estrelas era logo ali e sevia um pequeno almoço de dar água na boca, com deliciosas bolinhas de Berlim.

Insaciáveis que somos, queríamos deixar logo o conforto do hotel para ganhar as ruas de Lisboa, provar as castanhas queimadinhas da senhora de bigodes longos e negros e os incomparáveis pastéis de nata acabadinhos de sair.

Essa delícia típica só encontramos em Belém, depois de percorrer 40 minutos num comboio amarelo. Mosteiro dos Jerónimos e Fernando Pessoa. Ah, a Torre de Belém e o pôr do sol às margens do Rio Tejo. Diante dessa paisagem provamos o melhor bacalhau à brás da história, se bem que meu paladar estava mais para um esparguete ou um esparregado. Este seria impossível pedir. Como se fala, Alê? Espá”tsc tsc”?

A malta se juntou nos dias seguintes para desbravar o país. De Óbidos a Sintra, de Porto ao litoral brutal de Cascais. Castelos de pedra, trilhas no parque, cidades muradas, ruazinhas apertadas, praias, mirantes, baladas, baladas. Numa dessas a caça à pastilha elástica durou a noite toda. Sem sucesso.

O mitsubishi popular andou sozinho pelas estradas, fez alguns desvios inesperados, mas pagou as paragens, parou em multibancos e em áreas de serviço. Na casa de banho o aviso sério: não deitar papel na sanita.

Com nossos guias seguimos viagem por recantos incrivelmente lindos. Momentos fixes. Entendemos o porquê do mar (e da Mar), o porquê do surfe. Eles madaram vários bitaites e nós só nas escáfias. Numa dessas nos contaram como as meninas “se estavam a vir”. Esses gajos, viu!

Mas nós não papamos grupos, usamos calça de ganga e somos gira.

Eita língua marada! Choca!

O Brasil não merece o Brasil

Brasileiro que é brasileiro não desiste nunca. Vem morar na Europa em busca de oportunidades, não consegue nada muito bom (ainda mais sem lenço nem documento) e acaba desenvolvendo práticas que só nós, brasileiros, somos capazes. Ou não?

Manchete do "Jornal Nacional" português no começo desta semana: "Venda de lugar na fila no Consulado do Brasil em Lisboa". O quê??? Arregalei os olhos e não, não estava enganada. Os caras madrugam mesmo na porta do consulado e depois vendem o lugarzinho por 30 euros. A galera reclama, mas quem não quer entrar na onda e pagar também não entra no consulado. É a lei que a gente já conhece. Vergonha!