quarta-feira, 16 de junho de 2010

Copa do Mundo: é nossa?

                                                                                                                La Vanguardia


Maicon acerta uma trivela de desorientar até seus companheiros, redes balançam, Robinho passa um bolão para Elano disparar, vuvuzelas gritam, bar em fúria. É tudo verde-amarelo. E eu estou mais preocupada com a mandioca saída do forno. Quentinha, porque de morno já basta o jogo, mesmo com lindos gols. Poxa, é estreia, o que passa comigo?

Estou até agora tentando entender por que não me emociono mais com a Seleção. Mas é Copa do Mundo! E daí? Ah, se fosse o Corinthians... aí sim eu ia me descabelar, coração palpitar, nervoso, paixão inexplicável. Prefiro mesmo, oras.

Pode ser a cara feia do Dunga, os jogadores dos quais nunca tive notícia ou a falta de garra que sinto na equipe. O fato é que o Brasil não encanta. Eu me esforço, assisto, torço, mas muito mais para estar com a galera no bar, curtir a farra e matar a saudade daquilo que realmente me toca, como a mandioca quentinha...

Não sei aí, mas aqui em Barcelona a Copa toda vai mal. Pensei que veria nas ruas mais gente, mais cores, mais emoção. Tudo mais ou menos normal, ainda mais depois do tropeço de hoje da Fúria! Espero que daqui para frente melhore, enquanto tento amolecer o coração.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Minha identidade

"Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!"

Fernando Pessoa

domingo, 30 de maio de 2010

Formentera, um absurdo


Não consigo encontrar melhor adjetivo para descrever a pequena ilha perdida no Mediterrâneo. Absurdo, muito absurdo. Um atrás do outro, praias, estradinhas de terra, mar-piscina. Céu. Vi todas essas imagens combinadas do banco da minha bike. Senti cada paisagem, vento no rosto, arrepios. Vivi em detalhes, livre, leve, simples assim. Um absurdo.


Entre faixas de areia branca, um oceano inacreditavelmente transparente, pedalando, o cheiro da terra, o cheiro das árvores, desfiladeiros, falésias. Uma estrada deserta, um farol solitário, uma caverna de pedra com vista para o mar. Pausa, sol, sossego, música do violão. Um absurdo.


Três dias inteiros estendidas na areia, com calor, sem biquini. Iluminadas pelo sol, pela paz. Pelo colorido objeto não-identificado que flutua entre as estrelas. Eu vi, é verdade. Pedalando, pedalando, liberdade, que paisagem! Outra, nossa, olha! Um absurdo. Queríamos a vida sempre assim, felicidade plena, problema? Ê Formentera, que absurdo!    


PS: A ilha tá na moda faz tempo. Ganhou fama como cenário do filme Lucía e o Sexo e foi hit do verão passado com o animado comercial da cerveja Estrella Dam (vale a pena ver: http://www.youtube.com/watch?v=1VRZlSSIrwY). Fica a apenas 20 minutos de barco de Ibiza, uma dobradinha sem comentários. Absurdo.
 

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Atropelos

Fui atropelada. Pelo turbilhão de pensamentos, caminhão de experiências, mala de trabalhos. Pelo tempo, sobretudo. Passaram dias, semanas, um mês inteiro sem que eu escrevesse uma só linha neste modesto espaço. Muita coisa para dizer, preguiça, crise. Inspiração que não vem, como descrever? Acho que minha jornada está chegando ao fim. E isso me afeta profundamente.

Sinto tristeza já, mas ainda faltam três meses! A volta, que depressão, melhor aproveitar (ainda mais) cada milésimo de centésimo de segundo na Europa. Arrumei as malas e fui. Primeiro Bilbao e San Sebastián, no país basco, norte da Espanha. Genial, moderno, autêntico. Da baía turquesa ao incontornável Guggenheim, sem falar dos saborosos pintxos.


Trabalho e faculdade vou levando como dá. E de repente Menorca, para celebrar meu cumpleaños na companhia das mais queridas amigas! Sol, muito. Praia, água transparente, surpresa, bolo. Impagável, obrigada!




Agora escrevo arrumando as malas para Ibiza e Formentera. Praia, mais. Não canso nunca. Também, depois de um ano de inverno e um branco branquíssimo, eu mereço, por favor!

Talvez role Amsterdam, Málaga, Costa Brava, mas o mais importante eu já tenho: as passagens para o gran finale, a viagem dos sonhos, eu e mamá: Budapste-Praga-Berlim.

Tudo isso para contar que minha ânsia só piora. Ainda mais com o tempo passando por cima de mim.  

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Parêntesis

“¿Le ofrezco algo, guapa?” Eu, tonta, distraída, ainda encarei o tipo. Passavam das 21 horas e andava tranquilamente pelo Gótico quando o vi se aproximar. Ele, alto, forte, vinha certeiro em minha direção. “¿Le ofrezco algo, guapa?”, repetiu. Passei batido, ele virou, eu vi que me seguia, ele insistiu. E estava ofendido. “¿Qué es, no fuma porro?” Mantive os passos, senti os dele. “Tengo más cosas.” Fingi que não ouvi e entrei na taverna basca pensando: tenho cara de quê?
- “Le ofrezco algo?”
- Si, uma cerveza.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O mundo particular de Marrakech


Era como se tivesse aterrissado em outro planeta.  O barbudo tocava a flauta e encantava a cobra e me olhava feio. Eu só queria fazer uma foto daquela cabeça larga, elástica, preta. De longe, beeem longe. A mulher toda coberta pegava na minha mão e tentava fazer um risco com henna. O homem do macaco amestrado quase o jogou no meu ombro. Por um clique - e um troco. O da barraca da laranja acenava e me chamava desesperadamente, e o das castanhas, hummm, me regalou algumas.

Andando sem foco nem rumo pressenti que a praça Djemaa Al Fna era realmente outro mundo. O mundo particular de Marrakech. É ali onde todos devem estar e estão: moradores, turistas e caçadores de turistas prontos para comer, rir, vender, comprar, passear, rir, rezar.




Eu, Lari e Marcy fomos pegas pelo estômago. Era preciso renovar as energias com couscous de legumes e tahine de carne para enfrentar o caos. Flauta, apito, gritos. Chamado do muezin para a oração na mesquita. Não sabíamos para onde olhar. Até o barbudo da cara feia querer cobrar a foto. Justo. Lari, Marcy e a cobra. De longe, beeem longe.


Da tatuagem de henna e do macaco amestrado conseguimos nos livrar, mas das barracas de laranja e outras guloseimas...os olhos arregalaram, a boca encheu e o estômago cheio até pediu mais diante de coloridos damascos, amêndoas, ameixas. Castanha, figo, nozes. Com a sacola cheia de “especiarias” entramos e nos perdemos pelos zocos, os mercados sem-fim de Marrakech.

Começou, então, o turno da pechincha. Haja saco, só  Lari para enfrentar. Eu tentei, até consegui um desconto arrastando meu francês com um velho chato e convencendo um jovem marroquino apaixonado pelo Palmeiras, ou melhor, pelo Diego Souza, que o Corinthians é o melhor do mundo. Mas esse era mesmo um trabalho para as primas. A trabalhar!

Um lenço aqui, uma almofada lá, um brinco de prata acolá. Ai meu deus, bolsa de couro, chaveiro de olho, caixinha de madeira. Babuches! Olha o carrinho do torrone, pé de moleque, doce de amêndoa. Para tudo, a gente quer mais. 


Sem perceber anoiteceu. Custou encontrar o fim do labirinto e reconhecer a Djemaa Al Fna. À noite, a praça é outra. Tem barracas, mesas e bancos para todos os lados. Gente, muita gente, fumaça. Cor, cheiro, gosto. Impossível quebrar esse feitiço. O muezin chama mais uma oração. O garçom atrapalhado fala, fala e nos convence. Sentamos. Ele joga o pão na mesa com a mão, sem frescura. Depois traz kafta, berinjela, mais, legumes, azeitonas, mais.  

Muito mais que satisfeitas vamos deixando a praça para trás. O barbudo não está mais lá, nem as tatuadoras de henna. Agora são grupos musicais perdidos na multidão. Sinto uma, duas, três mãos na minha bunda. O que? Olho para trás furiosa, só vejo rostos inocentes. “Chica flaca”, leia-se magra. Era tudo o que precisava ouvir.

Próxima experiência: a Medina de Fes.



terça-feira, 6 de abril de 2010

Orgulho catalão


Faltam cinco minutos para a bola rolar, restam cinco alunos na classe. Contando comigo, já de bolsa na mão e mão nos ouvidos. O professor disparou a falar, nadie le hizo caso, coitado, então nos mandou para casa. "A ver al Barça".

Saí correndo, como se fosse o Corinthians. Não podia perder nem mais um segundo da partida. A rua, escura, vazia. O metrô, alguns passageiros, rádios atentos. Gooool, é do Messi, ouvi do bar da esquina. Gooooooool, Messi de novo, gritava meu compaheiro de apê enquanto eu ainda abria a porta de casa. Barça 3 X 1 Arsenal, e fim de primeiro tempo. Consegui ver ao vivo o quarto gol de Messi, ouvi o apito final e me enchi de orgulho.

Nesta manhã já havia sentido algo parecido. Casa nova, novas descobertas (sim, mudamos, há dois dias!!). Perdi o fôlego ao ver da minha rua duas torres da Sagrada Família, iluminadas pelos primeiros raios de sol. Fiz questão de passar em frente, eu e minha bike, mesmo porque não sabia exatamente que caminho fazer até o trabalho. Segui a intuição, a cor, o cheiro de Barcelona. E não é que fui parar na frente da Santa Maria del Mar?  Que orgulho!

Não está naaaada mal começar assim o dia, mesmo depois de uma semana intensa entre dunas e mercados marroquinos. Ahhhhh, o Marrocos, assunto sem fim para os próximos posts. Antes preciso superar minha crise aguda de inspiração.