terça-feira, 13 de abril de 2010

O mundo particular de Marrakech


Era como se tivesse aterrissado em outro planeta.  O barbudo tocava a flauta e encantava a cobra e me olhava feio. Eu só queria fazer uma foto daquela cabeça larga, elástica, preta. De longe, beeem longe. A mulher toda coberta pegava na minha mão e tentava fazer um risco com henna. O homem do macaco amestrado quase o jogou no meu ombro. Por um clique - e um troco. O da barraca da laranja acenava e me chamava desesperadamente, e o das castanhas, hummm, me regalou algumas.

Andando sem foco nem rumo pressenti que a praça Djemaa Al Fna era realmente outro mundo. O mundo particular de Marrakech. É ali onde todos devem estar e estão: moradores, turistas e caçadores de turistas prontos para comer, rir, vender, comprar, passear, rir, rezar.




Eu, Lari e Marcy fomos pegas pelo estômago. Era preciso renovar as energias com couscous de legumes e tahine de carne para enfrentar o caos. Flauta, apito, gritos. Chamado do muezin para a oração na mesquita. Não sabíamos para onde olhar. Até o barbudo da cara feia querer cobrar a foto. Justo. Lari, Marcy e a cobra. De longe, beeem longe.


Da tatuagem de henna e do macaco amestrado conseguimos nos livrar, mas das barracas de laranja e outras guloseimas...os olhos arregalaram, a boca encheu e o estômago cheio até pediu mais diante de coloridos damascos, amêndoas, ameixas. Castanha, figo, nozes. Com a sacola cheia de “especiarias” entramos e nos perdemos pelos zocos, os mercados sem-fim de Marrakech.

Começou, então, o turno da pechincha. Haja saco, só  Lari para enfrentar. Eu tentei, até consegui um desconto arrastando meu francês com um velho chato e convencendo um jovem marroquino apaixonado pelo Palmeiras, ou melhor, pelo Diego Souza, que o Corinthians é o melhor do mundo. Mas esse era mesmo um trabalho para as primas. A trabalhar!

Um lenço aqui, uma almofada lá, um brinco de prata acolá. Ai meu deus, bolsa de couro, chaveiro de olho, caixinha de madeira. Babuches! Olha o carrinho do torrone, pé de moleque, doce de amêndoa. Para tudo, a gente quer mais. 


Sem perceber anoiteceu. Custou encontrar o fim do labirinto e reconhecer a Djemaa Al Fna. À noite, a praça é outra. Tem barracas, mesas e bancos para todos os lados. Gente, muita gente, fumaça. Cor, cheiro, gosto. Impossível quebrar esse feitiço. O muezin chama mais uma oração. O garçom atrapalhado fala, fala e nos convence. Sentamos. Ele joga o pão na mesa com a mão, sem frescura. Depois traz kafta, berinjela, mais, legumes, azeitonas, mais.  

Muito mais que satisfeitas vamos deixando a praça para trás. O barbudo não está mais lá, nem as tatuadoras de henna. Agora são grupos musicais perdidos na multidão. Sinto uma, duas, três mãos na minha bunda. O que? Olho para trás furiosa, só vejo rostos inocentes. “Chica flaca”, leia-se magra. Era tudo o que precisava ouvir.

Próxima experiência: a Medina de Fes.



Um comentário:

  1. Amei e imprimi para a familia toda desconectada ler!!!
    Sabem o qto queria estar junto, né?!?
    AMUUUUUUUU
    Bjos

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